O
sol começa a se esconder atrás dos mares de morros, a noite aproxima-se com sua
brisa. A paz está presente nessas ruas de pedras e paralelepípedos, na praça romântica
de cidade do interior, ela está na arquitetura do século XIX e nos sorrisos dos
jovens sentados na praça conversando, após deixar o celular em casa. O sino
toca na torre da igreja, é dia de missa e a matriz transborda de almas. Tudo
isso observo do alto da janela do meu quarto, de um casarão do século XIX por
onde passou grandes personalidades da nossa história- o Imperador D. Pedro II e
o escritor Monteiro Lobato. Debruçada na janela encanto-me com essa cidadezinha
do interior de São Paulo.
Respeitosamente,
preciso discordar de Monteiro Lobato quando diz que o Vale do Paraíba passou a ser
uma região de “Cidades Mortas”. Concordo que riquezas econômicas (fúteis) não
há muito por aqui, concordo que o “desenvolvimento” capitalista apenas chegou
perto dessa cidade, talvez por isso ela pareça um cenário congelado no tempo,
uma memória que se faz presente e viva (e não morta). Mas, quando se quer
encontrar outros tipos de riquezas- tranquilidade, carinho, amizade,
honestidade, humildade, hospitalidade, generosidade, natureza e pureza- esta
pode ser considerada uma das cidades mais ricas do país. Rica de humanidade, de
belezas naturais e de preservação da memória histórica de homens e mulheres que
viveram e vivem caminhando por essas ruas e cumprimentando os vizinhos. Com
todo o respeito ao Valeparaibano Lobato, a cidade de Areias nunca foi tão viva
quanto agora. Muito mais viva agora no século XXI do que foste um dia no
passado.
Por
que afirmo isso? Porque se fosse há dois séculos, eu estaria aqui nesta janela
observando negros trabalhando e sendo castigados nessas ruas, escravos de
senhores brancos que não tinham suas almas reconhecidas por essa igreja que toca
e faz soar o sino. Iria deparar-me não com a paz e a humanidade, mas com o
sangue e a violência desumana que manchou a história do nosso país. Não ia
deparar-me com jovens negros sentados na praça sorrindo e conversando, mas
amarrados nos troncos, chorando. Portanto,
posso afirmar: hoje essa cidade possui verdadeiras riquezas que a humanidade
necessita; diferente dos tempos áureos, das riquezas da sociedade do café que
promovia a morte. Hoje é uma cidade viva, no passado foste uma cidade morta.
Quem
sou eu nesta cidade? Apenas mais uma professora itinerante que encanta-se com
tanta riqueza. Que enxerga esperança em uma pequena escola do interior.
Questionam-me se vale a pena “perder” minha juventude sendo professora da
educação pública e básica de uma cidadezinha como essa. Mas não percebem que
estou ganhando e não perdendo, ganhando ao ter o privilégio de conviver e
aprender com pessoas que nasceram e cresceram nesse ninho de humanidade e
simplicidade. Alegro-me ao deparar-me com alunos e alunas que estão
dedicando-se aos estudos e conquistando sua liberdade de sonhar, liberdade mais
importante do que a conquistada em 1888. Sou uma professora viajante e aprendiz
que almeja ser capaz de aprender e internalizar todas as riquezas que esta
cidade e que estes alunos têm para me ensinar.
Rafaela Molina de Paiva